Sophia Gomide
Uma história triste pode ter um final digno?
Por Saulo Pereira Guimarães
Sophia Gomide nasceu em 1884. Tinha quatro anos quando a escravidão foi abolida e cinco quando a república foi proclamada. Aos 11, viu o pai virar presidente da província de São Paulo. Aos 15, o século XIX virar século XX. E, em algum momento dos anos seguintes, iniciou seus estudos na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Lá, Sophia conheceu Manuel, um poeta que fora policial e tinha os estudos pagos pelo pai dela. Após a aproximação inicial, os dois se apaixonaram e decidiram se casar. Marcaram a cerimônia para 27 de janeiro de 1906. Mas, aqui, a história de Sophia toma um rumo inesperado.
Em 20 de janeiro de 1906, o senador Francisco de Assis Peixoto Gomide levantou-se da mesa onde almoçava, na casa da família, na Consolação. Dirigiu-se à sala de estar e, de posse de um revólver Smith & Wesson, disparou contra a testa de Sophia, que bordava sentada em uma poltrona. Ela morreu na hora. Depois, o senador ainda passou um tempo com a arma em punho e Gnesa — uma outra filha — na mira, até seguir para sala de visitas. Lá, sentou-se ao piano e apertou o gatilho de novo — dessa vez, contra o próprio ouvido. O revólver falhou. Ele fez nova tentativa, conseguiu e tombou morto sobre o teclado.
Há várias hipóteses sobre a motivação do crime. Uma delas dá conta de que, cinco dias antes do assassinato, Peixoto Gomide disse a seu psiquiatra, Franco da Rocha, que preferia a morte da filha a seu casamento. Já outra diz que, para forçar o pai a aceitar o matrimônio, Sophia teria dito: “o senhor tem que consentir, porque eu já me entreguei a ele”. Há ainda uma terceira, rocambolesca, segundo a qual Manuel seria filho do senador com uma escravizada — o que teria motivado o político a tomar a decisão fatal. Nenhuma delas — assim como nenhuma outra — poderia justificar nada do que aconteceu.
Em 1914, a Câmara Municipal oficializou como Peixoto Gomide o nome da rua onde o crime aconteceu, numa homenagem ao feminicida. Não pelo crime, mas por supostos feitos anteriores. Manuel Batista Cepelos, o noivo, batizou outra via, na Vila Mariana. E até Franco da Rocha virou nome de cidade na Grande São Paulo. Só Sophia não foi lembrada. Até que, no ano passado, duas vereadoras decidiram fazer o óbvio: trocar o nome do pai pelo da filha no endereço da tragédia. Uma mudança simples, mas que dá um final digno — não feliz — a uma história triste. O projeto de lei segue em discussão.
Cada vez que alguém chama a rua do crime de Peixoto Gomide, Sophia é morta novamente. Trocar o nome da via é dar a ela a Justiça possível e criar um marco de conscientização e respeito à dignidade feminina. Manter a alcunha é fechar os olhos para um problema ainda sem solução e negar qualquer disposição ou interesse em resolvê-lo. Agora, a cidade de São Paulo precisa decidir qual caminho prefere tomar e como deseja ser vista aos olhos do século XXI.
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Salve, meu povo! A última edição saiu bem na foto. Ana Rita lembrou dessa imagem de Walter Firmo. “Amo as cores, a alegria serena de quem sabe das coisas e o jeito que a pose dá uma autoridade, uma camada a mais de dignidade à grande compositora que ela era”, comentou.
Deixaram likes Alexandre A de Almeida, Cadu Carvalho, Camila Maia, Carlos Machado, Caroline Cavassa, Kami, Lívia Lima da Silva e Luanne Batista.
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Em Gabriela, Jorge Amado define a punição de um feminicida como um dos marcos da modernização de Ilhéus. Espero que São Paulo siga os mesmos passos e troque a homenagem a um feminicida por um fim mais digno para Sophia. E que esse marco simbólico seja apenas um dos muitos passos rumo a uma cidade mais feminina. Escolho esse adjetivo inspirado nas ideias da Gioconda Belli, em Um país das mulheres.
Quantas pessoas indignas são homenageadas. Precisamos criar o hábito de conhecer suas histórias de vida e cobrar que homenagens indevidas sejam retiradas. É nosso dever de cidadão. Em se tratando de feminicida, principalmente, sem qualquer chance de compactuar..