Lamas
Qual é o segredo do Café Lamas?
Por Saulo Pereira Guimarães
Uns conhecidos nossos têm um ritual interessante. Todo ano, os três vão ao Lamas, onde se encontram e pedem o mesmo prato. Sempre na mesma época, sempre do mesmo jeito. Eles sempre tentam pedir também uma sobremesa que eu não lembro qual é. O profiteroles, sei lá. Mas, como diria aquele personagem do Rubem Fonseca, aí é que está o busílis. Porque eles pedem a sobremesa e o garçom, que eu não sei dizer se é sempre mesmo, sempre dá a mesma resposta: “pede outra, essa não tem chantilly”. Isso se estendeu por anos a fio. Até que, neste ano, ele aceitou o pedido.
Essa história me veio à mente quando eu soube do incêndio do Lamas. É justo que quem seja de fora do Rio não saiba o que é o Lamas. Antes de tudo, é preciso dizer que o Lamas está em funcionamento há 152 anos. Durante grande parte desse tempo, o Lamas funcionou 24 horas por dia, numa cidade em que os lugares não ficavam abertos noite adentro. Não demorou para que o Lamas virasse letra de música do Chico Anysio e verso de soneto do Vinicius de Moraes. O Lamas é parte do Rio como a Portela, o Pão de Açúcar e a nossa irrefreável mania de falarmos de nós mesmos.
No Lamas, Machado de Assis tomou cafezinho e Rui Barbosa pediu a conta. Vargas devorou chás com torradas antes de pegar no batente no Catete e JK paquerou as normalistas do Largo do Machado.
Mas não se iluda. O Lamas não é a Confeitaria Colombo. Do que me lembro, a entradinha modesta com duas ou três mesas do lado de fora não entrega o salão com porta de vidro e ar refrigerado, nem o cardápio mais caro do que deveria ser. Nas (poucas) madrugadas em que estive por lá, gostei de comer o portentoso queijo-com-banana que, de tão grande, serve duas pessoas sem deixar ninguém com fome. É um dos lugares da cidade onde se cultiva a arte do arroz à piamontese, que é um prato que eu sequer sabia que era visto como carioca até conhecer Ana Rita. E vai por aí.
O fato é que, no último dia 16, o Lamas pegou fogo. “Gente do céu! O Lamas...”, nos escreveu uma amiga de Brasília e fui ler no Globo o que tinha acontecido. Na tarde do acidente, havia três mesas ocupadas e a TV exibia França x Senegal. Uma fritadeira que havia ficado ligada esquentou até incendiar. As chamas lamberam o exaustor e todos saíram correndo. Ninguém ficou ferido, com exceção da memória da cidade. Mas se até o superprotegido Museu do Louvre sofreu um assalto dia desses, o nosso pequeno templo da gastronomia carioca também tem direito a seus deslizes.
Os pratos do Lamas têm um ingrediente que nenhum outro restaurante tem: o tempo. Mais do que o alho que cobre os filés à Oswaldo Aranha, é ele quem dá gosto a tudo que chega a cada uma das mesas. Com os mesmos recursos, um outro estabelecimento não seria capaz de reproduzir as mesmas receitas. Porque só o tempo dá intensidade aos sabores, detalhes às histórias e graça ao mau humor dos garçons. No fundo, o tempo é como chantilly. Não tem muito gosto de nada. Mas, sem ele, as sobremesas — ou a própria vida — não teriam a mesma graça.
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Salve, meu povo! A última edição foi eleita a melhor da semana passada. “O texto está delicioso, mas a foto é impagável”, disse Ana Rita. Renan França mandou avisar que, na Europa, está na moda usar tênis de corrida com calça social. “Ele é a prova que um modelo de tênis da On não fica bom em todo mundo”, resumiu Ana Bimbati.
Deixaram likes Alexandre A de Almeida, Dinorá Zanina, Laila Nery, Luciane Scarazzati, minha irmã, Rosemberg Costa e Uesley Durães.
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Ahhh tá sendo difícil viver sem o Lamas. As pessoas falam, "vamos tomar um chopp?". E eu penso, "mas o lamas ra fechado". E sabe o curioso? Esse ano, pela primeira vez, a gente conseguiu comer a Delícia do Lamas, a sobremesa com chantily. Menos de um mês depois, o bicho pegou fogo....
Ontem estava lendo o "roteiro lírico e sentimental da cidade de são sebastião do rio de janeiro, onde nasceu, vive em trânsito e morre de amor o poeta Vinícius de Moraes" e passei pelo Soneto do Café Lamas. Lembrei desse texto e voltei para compartilhar. Adoro a newsletter!
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