Bracadum
Como é a vida de quem vive longe da própria terra?
Por Saulo Pereira Guimarães
Aqui perto tem um restaurante árabe muito bom. O kibe deles é maravilhoso. Eu volta e meia almoço lá. Presenciei outro dia uma conversa interessante do dono com uma das funcionárias. Ele é estrangeiro e não fala português. Já ela é brasileira.
"Toma, é para você", disse ela ao oferecer a ele uma esfiha. Ele fez uma cara de dúvida, coçou a barba que não tem e soltou: "É bracadum?". Ela não entendeu nada. Eu, que não precisava entender, fiquei sem entender também. "Bracadum?", insistiu ele. Até que ela, após um enorme esforço interpretativo, entendeu e respondeu: "Não! Não é brincadeira, é para você mesmo".
Não preciso dizer que, desde então, eu me refiro ao restaurante como Bracadum. Não preciso dizer também que, na língua portuguesa do Brasil, os nomes dão origem a adjetivos, advérbios e outras variações interessantes. "Vamos jantar hambúrguer, beleza?", me zapeou Ana Rita outro dia. "Bracundei no almoço, tô suave", respondi, para o orgulho de Camões. "Adorei que virou um verbo", ela se derreteu.
E assim a gente vai ganhando mais uns pontinhos com a mulher amada.
É claro que, ao saber do caso que batizou o Bracadum, Ana Rita se prontificou a visitar o local comigo. Pedimos uns salgados para comer antes de fazer as compras no sacolão ao lado e o anfitrião nos recebeu com a ignara simpatia de costume. Sabendo de seu histórico, minha cônjuge não titubeou e, ao ser servida, soltou logo um sonoro "shkran" — obrigado, em árabe. Aí, foi ele quem se derreteu. Afinal, o que eu tenho de tímido e observador, ela tem de curiosa e poliglota. Foi nesse dia que descobrimos que Bracadum — a pessoa física, não a jurídica — é do Iemen. Salvo engano, pedi um kibe na ocasião. Estava ótimo.
É muito bom, eu recomendo de verdade.
De outra, fui almoçar no Bracadum e ele estava vendo um jogo de futebol. Ittihad versus Al-Orobah, pela enésima rodada da Liga Saudita. O Bracadum nesse dia assistia a tudo na TV muito compenetrado. Salvo engano, ele torcia pelo Al-Orobah. "Mu time", avisou a certa altura.
Num lance perigoso, o Ittihad chutou a gol e quase fez. Bracadum não se conteve: "Caralho" — mas a funcionária (a mesma da esfiha) o reprovou. Ele me olhou e perguntou "está tudo certo?". Eu disse que sim. Afinal, torço para o Vasco.
E assim ficamos entendidos em relação a falar palavrões enquanto se torce para times ruins durante jogos de futebol.
Brincadeiras à parte, é de se admirar a coragem de quem larga a própria terra e vai viver em outro canto. Quem já tentou sabe que não é fácil e, se digo isso, é com lugar de fala, podem acreditar. Um brinde ao Bracadum e a São Paulo, que é uma grande celebração da migração e de tudo de bom e ruim que ela significa.
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Salve, meu povo! Muita gente curtiu dar um passeio pela Varnhagen com nossa última edição. "Atualmente está difícil definir o que é absurdo. São tantos, que nem nos dá tempo de confundir", disse Eliete Pereira.
Carlos Sousa, Liv Brandão, Ludmila Primo, Mariah Pereira, minha mãe, Kami, Romulo Tesi deixaram likes.
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Até quinta, às 8h30, aqui na Eixo.
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O Bracadum já tá na minha lista 😋
Adorei! Me diverti; nunca pare de escrever essas crônicas, por favor!