Gordon Parks
Por que Gordon Parks: A América Sou Eu vale a visita?
Por Saulo Pereira Guimarães
Em 1950, Gordon Parks foi escalado para uma reportagem sobre a segregação escolar no Kansas. O fotógrafo escolheu como cenário Fort Scott, cidade onde nascera e terminara os estudos em 1927. Vinte e três anos depois, 10 dos seus 11 colegas de turma haviam migrado para locais como Chicago e Detroit por conta do preconceito. Só Pauline Collins seguia por lá. Casara, tivera filhos e era dona de casa. São ela e o marido que aparecem na foto.
É domingo de manhã. Pauline e Burt voltam do culto, revela a Bíblia na mão esquerda dele. O vestido preto dela com detalhes brancos na manga e na gola transmite a mesma sobriedade do paletó com camisa branca do marido, mas há espaço para alegria no chapéu de aba reta, charuto e gravata com desenhos geométricos dele – tanto quanto nessa espécie de boina escura com um pequeno véu sobre a cabeça dela. O olhar firme e sereno dos dois transmite respeitabilidade e os braços dados mostram que formam uma família, como tantas outras que a escravidão tentou destruir – mas, curiosamente, só fortaleceu.
Apesar da qualidade, a reportagem não foi publicada pela Life e a foto só foi encontrada em 2015. A imagem é minha favorita entre as 200 que formam a mostra gratuita recém-aberta no IMS Paulista, mas há outras boas. Em 1956, Parks foi ao Alabama fotografar a família Thornton. No registro que abre a reportagem, um casal de senhores aparece sentado no sofá da sala de casa. A cerimônia da camisa branca com suspensório do homem calvo de bigode contrasta com a festa de cores do vestido da mulher e do arranjo sobre a mesa. Mas o que mais chama atenção é um retrato dos dois, pendurado acima do casal na parede de tábuas brancas. O retrato nos diz que eles têm uma história, algo que a escravidão também tentou nos negar – mas que a foto (assim como o retrato) impediu.
Fort Scott, 1963. De olhos fechados, um menino deitado na grama brinca com um inseto preso a uma corda que passeia sobre sua testa. No que será que ele pensa?
Porque sim, ele pensa. Afinal, está de olhos fechados.
Para mim, o mais interessante da exposição é mostrar como Parks conseguiu dar aos negros por meio de suas fotos justamente aquilo que a sociedade americana lhes negava. Mas há outras nuances. Na cobertura do movimento por Direitos Civis nos anos 1960, detalhes revelam os diferentes posicionamentos das várias correntes envolvidas. Na Marcha para Washington, pretos e brancos estão tão juntos nos aplausos como no provável ideal do orador com a palavra. Já num registro da Nação do Islam, no mesmo 1963, todos no quadro são negros, olham na direção da câmera e a manchete do Muhammad Speaks que um sorridente homem de terno carrega no meio da multidão dá o recado: “Nossa liberdade não pode esperar!” Do mesmo contexto, há uma foto ainda mais provocativa, em que um garoto negro, de costas, apóia os braços numa placa que diz “não ultrapasse”. Há quem possa olhar e só ver rebeldia. Mas a verdade é que ali existe muito mais.
A exposição fica em cartaz até 1º de março.
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Até quinta, às 8h30, aqui na Eixo.
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