Zona Sudoeste
Por que os lugares mudam de nome?
Por Saulo Pereira Guimarães
O Rio de Janeiro sempre foi assim, diz aquele samba do Zeca Pagodinho que você não deve conhecer. Com Cristo Redentor, Pão de Açúcar e companhia, a Zona Sul é a cara da cidade. Já o Centro é o coração, com sua mistura de generosas avenidas e ruas estreitíssimas. E a alma, não se engane, mora nos subúrbios. É muito provável que a sua ideia do que seja um carioca se pareça mais com um morador do Méier do que com alguém de Ipanema.
Porém, os mais atentos devem ter percebido que, nesses termos, a conta não fecha. Diferentemente de São Paulo, o Rio não tem Zona Leste. Esse espaço é ocupado pela Baía de Guanabara e, mais adiante, o que se pode chamar de Grande Niterói. Mas a Zona Oeste existe sim e é, inclusive, a maior de todas. Começa no Joá, atravessa a imensa Jacarepaguá e vai até a longínqua Santa Cruz. Entre uma ponta e outra, cabem muitos Bangus, Realengos, Campos Grandes e afins.
O fato é que, em agosto, a Zona Oeste do Rio foi oficialmente desmembrada. De um lado, os vereadores deixaram a parte mais associada ao passado rural: Guaratiba, Inhoaíba, Sepetiba e outras paragens. Do outro, ficou a parte considerada mais chique: Barra, Itanhangá, Recreio e muito mais. É certo que Cidade de Deus, Rio das Pedras e Praça Seca ficaram também. Mas o estrago já estava feito. Desde então, a cidade tem uma zona a mais: a tal da Zona Sudoeste.
A justificativa oficial foi de que, com a criação da Zona Sudoeste, os bairros que a integram terão “melhor organização de infraestrutura” e “uma prestação de serviços mais eficiente à população, a qual não sofrerá mais com a confusão gerada frente a dimensão e extensão da área em que moram”. Ou seja, a Zona Sudoeste existe porque a Zona Oeste era grande demais. “Nada mais justo do que os recursos arrecadados nesses bairros retornarem na forma de novos e imprescindíveis investimentos”, escreveu o vereador, num argumento similar ao dos paulistas que defendem que a verba gerada pelo estado volte todo para ele.
Não sou urbanista, geógrafo, nem vereador. Mas, desde o início, me incomoda essa Zona Sudoeste. Incomoda porque, desde sempre, atravessei o Catonho para chegar à Taquara e a Intendente para alcançar o Jabour. Não é que vias que interligam as zonas inviabilizem a divisão, mas qualquer um que trafega por elas concorda que não existe grande diferença entre uma ponta e outra do caminho. Nada me convence de que isso não foi uma jogada de mestre para vender condomínios por um preço maior, só pela suposta localização privilegiada. Mas também não tenho incorporadora.
No fundo, é tudo uma questão de por que os lugares mudam de nome. Antes de ser Rio, o Rio já foi Uruçumirim, mas muita gente morreu para justificar a mudança. Canetadas tentaram fazer do Engenhão João Havelange ou Nilton Santos, mas nenhuma das alcunhas pegou. Resta saber se agora, com a tal Zona Sudoeste, a municipalidade terá melhor sorte. Afinal, como já cantava Zeca Pagodinho naquele samba que você não deve conhecer, o Rio de Janeiro sempre foi assim.
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Deixaram Ludmila Primo e... mais ninguém!
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Não gosto das constantes trocas de nome. Além de criar confusão em nossas cabeças, considero um desrespeito. Quanto à atual Zona Sudoeste, com certeza, a questão financeira falou mais alto.
E em Brasília, existe o Sudoeste, também conhecido como um bairro onde não passa ônibus (passa, mas é como se não passasse) 🤡