Portunglês
Que língua falamos?
Agora, ninguém mais é da vida. Todo mundo é do job; Ninguém mais é olheiro. Todo mundo é scout; Ninguém mais bate foto; Todo mundo tira selfie.
Você aí, que me lê nesse belo look, em seu smartphone de última geração, já parou para pensar nisso? Em meio a tantas calls, tantas lives, pode ser que não. Mas não é fake news: estamos vivendo em inglês. Ou melhor, em portunglês, uma mistura confusa do que se fala lá com o que se pensa aqui e que rende os resultados mais interessantes. It's very nice para chuchu.
No mercado, a dupla waffle e cream'n'cracker ganhou companhia: avocado, cream cheese e ele, o famigerado body splash, que quem provou até diz que funciona — mas ninguém explica porque é de vanilla e não de baunilha, como era de se esperar. Na sessão de bebidas, APAs, IPAs e Pales Ales desfilam uma naturalidade de constranger guaranás. E quando foi mesmo que tigela virou bowl?
Mas a nova língua é, como qualquer idioma, viva e já dá por aí os seus babies. Não tem como não shippar esse encontro da malemolência do latim decadente com a falsa universalidade anglo-saxã. O feedback é positivo para termos como home office — bem melhor que trabalho remoto —, delivery — quem aí se lembra do entrega à domicílio? — e spoiler (praticamente sem tradução).

O portunglês não se limita, by the way, a uma mera plataforma de importação. Muita coisa de lá, antes de pegar por aqui, passa por um rebranding. Digo isso pensando naquela música do Tiago Iorc do "vai sem eu dizer", numa reportagem que vi outro dia e me cravou um "mandatório" em vez de obrigatório e no MPF, que quer R$ 10 milhões da Globo por dizer récorde e não recórde.
Anyway, o importante é que todo mundo se entende. Um amigo estrangeiro achou graça de dizermos feicibúqui e não fêicebu, tuíter e não túirer, inxta e não înstagrem. Até aí, tudo ok. Mas eu fiquei de cara mesmo quando ele me explicou que a pronúncia certa para o nome do chocolate era quiriqué e não quíti quéte, como eu sempre falei. Tive até que dar um google para acreditar.
Inculta e bela, a última flor do lácio tem de bom esse quê de maria sem-vergonha. Sai por aí, se misturando e roubando para si o que vê de útil. Só não vale é xerocar aquilo que não tem motivo. Afinal, o português do Brasil, quando quer, é capaz de dar nó em pingo d'água e fazer o filho chorar e a mãe não ver. Para quem sabe ler, um pingo é letra. Ademã, que vou em frente.
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Adorei o texto, Saulo!
Obrigada, Saulo. Depois dessa ode ao portunglês, percebi que estava prestes a cometer um pequeno crime linguístico doméstico: batizar minha nova gata de Honey Baby.