Virada
O que a Virada virou?
Por Saulo Pereira Guimarães
Lembro até hoje dos atiradores de elite no topo dos prédios. A expectativa geral com a volta dos Racionais, seis anos após a confusão na Praça da Sé, contrastava com a tensão das fardas prontas para atirar nos quatro cantos do perímetro em frente ao palco que escondia a estação Júlio Prestes. Lembro do Suplicy, dançando sozinho no meio do povo e exposto no telão. Foi a única vez em que vi um show do Racionais. E eles não decepcionaram.
Lembro de, no mesmo ano e no mesmo palco, ouvir a Gal cantar Um dia de domingo. Primeiro, com sua voz. Depois, com a voz de Tim Maia. Nesse dia, eu entendi porque dizem que, ao lado de Elis, ela foi a maior cantora brasileira no Século XX. Lembro de ver Cidadão Instigado tocar The Dark Side of The Moon no Largo do Paissandu com elogios entusiasmados de um guitarrista cabeludão nosso conhecido. Lembro de muita coisa. É, amigos, estou ficando velho. Que bom.
Na minha primeira encarnação paulistana, a Virada era uma das poucas coisas de São Paulo que faziam inveja ao Rio. A ideia de um fim de semana de shows gratuitos com grandes estrelas era um negócio muito sensacional para ainda não ter sido copiado, como o próprio tempo mostrou. Afinal, o que é o tal do Todo Mundo no Rio além de uma imitação atualizada e adaptada à megalomania carioca do que era a Virada em São Paulo nessa época?
De lá para cá, muita coisa mudou. O medo dos shows no Centro sempre existiu, mas ganhou proporções inauditas. Ali por 2013, havia essa ilusão gostosa de que ele fosse algo perto de um fim que a própria Virada providenciaria. Mas, desde então, aconteceu o contrário. O medo cresceu, tentou jogar a virada para dentro do autódromo e, vencido, conformou-se em pulverizá-la pelos quatro cantos da cidade — não sem antes deixar de enfraquecê-la.
Eu até pensei que fosse implicância minha, mas não é não. Em 2015, você ainda conseguia assistir nomes como Erasmo Carlos e Ney Matogrosso numa Virada. Medalhões consagrados, com shows capazes de nos manter horas cantando juntos. Hoje, isso virou raridade. Dei uma olhada rápida na programação desse ano e não há nada parecido. E sim, é importante que haja renovação e espaço para todos. Mas não tem muito jeito: não ter esses caras é tirar prestígio do evento.
Que fique claro: não digo aqui que não haverão bons shows na Virada deste ano, marcada para o penúltimo fim de semana de maio. Arlindinho em Parelheiros, Raimundos no Butantã, Simoninha na Parada Inglesa e Tulipa Ruiz no Arouche são atrações que eu pararia para ver. E certamente não são as únicas.
Mas, no fim das contas, é como se a Virada tivesse virado uma espécie de carnaval fora de época, com shows mais animados que interessantes. É o carnaval possível, sem confusão e com hora para começar e acabar — características que o carnaval de fato (que antes inexistia e agora é uma realidade em São Paulo), por sua própria natureza, tem dificuldade de incorporar. Bom, que comecem os shows e que todos possam aproveitá-los da melhor maneira mais uma vez.
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Eu gostava muito desse clima de São Paulo no começo da década passada. Havia mesmo uma esperança no ar ou talvez fosse a nossa juventude otimista. Lembro desse show do Racional quando peguei um atalho atravessando a Cracolândia (por desorientação minha), me assustei com os atiradores nos prédios e me impactei com uma faixa que um grupo estendeu em um dos prédios: "Parem de nos matar".
Lembro também de curtir a Virada sozinha, encontrando e desencontrando amigos, adorando a sensação de atravessar o Centro de madrugada e pegando o metrô às 3h da manhã. Eu gostava também dos palcos em que o show era um álbum inteiro sendo tocado, reinventado ou não.
Isso tudo era antes da cidade shopping do Doria. Mas nunca se sabe, as utopias sempre estão a espreita. Talvez um dia, essa cidade que sonhamos volte a acontecer.
Acho que durante muitos anos a virada perdeu mesmo seu prestígio, sinto que existia até um incentivo a que ficasse esvaziada (para um dia acabar). Mas esse ano isso está diferente, a programação bem robusta e variada, com grande nomes. Nem tudo me agrada, mas fico com a sensação de que reclamar dos artistas de agora fica com aquela cara de “na minha época é que era bom” e soa até elitista. A Virada tem que ser variada como a cidade, não só para o nosso grupo de amigos.