Sinônimos
Por que não repetir palavras?
Por Saulo Pereira Guimarães
Dia desses, na redação, um colega sorriu duas cadeiras à direita. “O que foi?”, perguntei, dado o raro da situação. “Estou aqui lendo um texto sobre Copa”, ele me respondeu, “e achei engraçado chamarem a bola de redonda”, explicou. “Não sabia que se usava assim”, disse. “Usa-se”, devolvi. “Assim como se usa redonda como sinônimo de pizza em texto de gastronomia, quando não se quer repetir o termo”, acrescentei prontamente, num desfile orgulhoso da mais completa inutilidade dos meus profundos conhecimentos.
Há um monte de palavras assim. Dessas que a gente, quando está escrevendo, para não repetir, termina escolhendo outra, crente que serve de sinônimo. Mas que, na prática, só serve para substituir a outra por causa desse acordo tácito, que eu não sei quem firmou mas todos seguimos, de que fica feio repetir uma mesma palavra várias vezes no mesmo texto. Só na editoria de política, lembro de vários exemplos. Um deles é chamar eleição de pleito. Fora desse contexto, quem fala pleito? Pois é. Por outro lado, não há projeto de lei que chegue ao segundo parágrafo sem ter se tornado proposta. Não esqueço uma chamada que levei de uma editora que eu detestava ao chamar um deputado estadual de parlamentar. “Deputado estadual não é parlamentar, só senador e deputado federal que são”, ela cravou. E o pior: não sei até hoje se ela estava certa. Já falei aqui que sou orgulhoso da completa inutilidade dos meus profundos conhecimentos? Pois é.
Em casos extremos, algumas palavras ganham novos significados com o exclusivo fito — olha aí, mais um sinônimo — de se tornarem um sinônimo — olha aí, mais uma repetição. É famosa no Globo a história do dia em que a repórter Vera Araújo fechava um texto sobre grupos de homens armados que cobravam por segurança privada nas ruas de Zona Oeste. Mas, como é de praxe nos textos, era preciso arrumar um título e como amarrar esse trambolhão no topo da página? A saída encontrada foi um sinônimo que terminou batizando o fenômeno: milícia. Às vezes, a mágica pode não funcionar por questões meramente culturais. Digo isso pensando nos diferentes significados que a palavra boate pode ter nas duas pontas da Dutra e nessa música do Jackson do Pandeiro.
Isso tudo para dizer: por que não repetir? Entre usar a mesma palavra mais de uma vez no mesmo texto e substituí-la por sinônimos estrambólicos, fico com a primeira opção. Afinal, não há nenhum motivo lógico para seguir essa regra maluca que inventamos e seguimos sem saber o porquê. Claro, mais até do que bom senso, minha opção exige bom gosto. Não adianta nada não repetir uma palavra e usar essa mesma palavra a cada vez que houver o desejo de se remeter ao que significa a tal palavra, num exemplo prático das consequências ruins que isso pode ter. Mas sim usar uma palavra e, depois, usá-la de novo e até outras vezes, mas sem deixar de usar a cabeça.
Sendo assim, repitamos. Repitamos até que a ideia tenha sido totalmente transmitida. Repitamos até dizer — ou que alguém diga — chega.
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Que delícia ler este texto. Qualquer apego excessivo a uma regra, gera respostas burras que às vezes vão na contramão do motivo de existência da própria regra —neste caso, não repetir em excesso para deixar o texto mais agradável à leitura. E salve Verinha! Um ícone do jornalismo e que vai ser homenageada na Abraji deste ano ✨
Com relação a referir-se a Deputado Estadual.como parlamentar, é perfeitamente aceito. Segundo o Glossário do Congresso Nacional o termo abrange o exercício do Poder Legislativo nas três esferas. A tal Editora estava enganada.