Bad Bunny
A nostalgia é sempre conservadora?
Por Saulo Pereira Guimarães
Bad Bunny não está nem aí para o futuro. É claro que ser o artista mais ouvido do mundo, ter acabado de vencer o Grammy e ter feito um show histórico no Super Bowl são fatores que ajudam. Mas suas maiores prioridades no momento são comer pão de queijo em San Juan e jogar dominó com tios e avós. Bad Bunny não está preocupado com as eleições, com Fernando Diniz no Vasco ou qualquer outro tema mais mundano. Bad Bunny quer apenas viver a vida que, segundo ele, é uma festa que um dia termina. É nesses termos que ele chegou a São Paulo, para shows no Allianz Parque, amanhã e no sábado.
Não precisa parar de ler aqui se você não conhece Bad Bunny. Eu mesmo não conhecia até uns 2 meses atrás. A história dele é interessante. Estudante de comunicação, trabalhava como empacotador de supermercado. Começou a subir uma músicas no SoundCloud, fez sucesso e virou estrela do trap. Seus diferenciais são “a voz grave e o jeito esquisitão de cantar”. A tudo isso, ele juntou no ano passado um ingrediente inusitado. Seu último disco, Debí tirar más fotos, traz uma sensualidade dançante encharcada de saudade. Mas saudade do quê? Tanto pode ser da pessoa amada quanto da terra natal, como também do tempo em que Porto Rico não era uma espécie de 51º estado dos Estados Unidos.
Nessas, Bunny pode ter inventado um tipo mais contemporâneo de música de protesto.
A nostalgia é, por natureza, um sentimento conservador. Ou, talvez, o mais preciso seja dizer que o conservadorismo é, por conveniência, uma movimento nostálgico. O que mais tem hoje no mundo é gente com saudade da década de 1950, quando todo mundo era feliz e sabia, o futuro parecia animador e transviado era sinônimo de querer ser James Dean. Nesses anos 1950, todas as diferenças tinham sido superadas (já que todos sabiam seu lugar), a pobreza até existia (mas era romântica, não revoltada) e qualquer tipo de irresignação era só mais uma das facetas do fantasma do comunismo — esse sim, um verdadeiro perigo. Mas posso assegurar que esses anos 1950 não foram os mesmos que viveram meus avós e, muito provavelmente, os seus. Porque esses anos 1950 nunca existiram.
O que Bad Bunny propõe é nostalgia no contra-ataque. Em vez de confusões no gravador, essas coisas de que a gente sente falta quando vai embora e se arrepende de não ter fotografado. Saudade não da ordem, mas da desordem, dos beijos e abraços e outras coisas que sempre esperamos que nunca mudem. As coisas que valem a pena e que, não por acaso, incluem o perreo, a salsa, a bomba e a plena — danças e ritmos típicos de Porto Rico. O mascote oficial do disco é um sapo ameaçado de extinção. A turnê não teve shows nos Estados Unidos para evitar prisões de imigrantes. Mas o recado está muito bem dado. “Ele não precisa fazer nenhum protesto explícito para transmitir sua mensagem”, afirma The New York Times. “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”, traduz Bad Bunny.
É esse tempo que pensamos que poderíamos esquecer, mas nos lembramos quando ouvimos Bad Bunny.
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Você escreve de música de um jeito muito único. Me encanta.
Do pouco que vi , já fiquei fã do cara! Protestou com firmeza e arte!