Vizinho peladão
Por que o vizinho peladão tem a sua razão?
Por Saulo Pereira Guimarães
Estima-se que a espécie humana exista há 300 mil anos. Surgida na África, ela foi nômade por 290 mil anos até se estabelecer nas cidades mais antigas de que se têm notícia, localizadas no Oriente Médio. Inicialmente compostas de casas, essas cidades tiveram imenso avanço a partir de 1700 anos atrás, quando foram erguidas em Shibam, no Iemên, as primeiras construções com características próximas às dos atuais apartamentos. E desde que existem apartamentos e vida urbana espremida em pequenas caixinhas de concreto, existe um personagem inexpugnável nessa forma de existência: o vizinho peladão.
Todo mundo tem um vizinho peladão. Se você não tem, muito provavelmente você é o peladão da vizinhança. O vizinho peladão é um ingrediente da experiência contemporânea tão onipresente quanto os óculos espelhados do Macron e a ansiedade climática. Tem a seu favor a curiosidade que gera e o completo desprovimento de apelo sexual. Mais que pura, sua nudez é inusitada. Contra si, a miopia, a moral e os bons costumes. Há relatos de verdadeiras guerras condominiais atribuídas a ele, que não deixa de ser um outsider na triste realidade do capitalismo tardio: podendo usar roupas, preferiu não fazê-lo.
Eu mesmo tenho aqui onde moro um vizinho peladão. Um só não, mas dois. Na frente, uma dona que se troca de luz acesa todo dia lá pelas às 20h. Nos fundos, um tipo meio cabeludo, que volta e meio nos surpreende com sua desagradável natureza. “Estava limpando o quarto e o vi, com aquela Mata Atlântica toda”, reclama a diarista. Eu no lugar dela escolheria Amazônia em vez de Mata Atlântica. No mais, não há muito o que se fazer. Ele está na casa dele. Eu, na minha. O jeito é fechar a janela. O vizinho peladão tem a seu favor a inviolabilidade de domicílio prevista na Constituição.
É de se pensar se a opção por não vestir nenhuma roupa, ainda que em casa, representa mais uma liberdade ou um retrocesso. Os defensores do 1º ponto argumentarão que sentir o ventinho batendo nas coisas é bom demais para que eventual moralismo do resto do mundo seja motivo suficiente para nos privar dessa alegria. Já os que acreditam na segunda hipótese podem vir a se ater ao progresso representado pela moda, essa forma de manifestação que permitiu à humanidade tanto expressar-se quanto proteger-se das piores frentes frias (que podem até demorar, mas sempre vêm, estejam certos). Quem será que tem razão?
Sinceramente, não sei se consigo ter uma opinião formada e definitiva sobre o tema. E nem sei se devo também. A gente tem que parar com essa mania de querer saber o jeito certo de fazer todas as coisas e deixar, finalmente, cada um cuidar da própria vida — tendo sempre como limite aquelas ações e atitudes que podem respingar na vida do próximo. Incluem-se na última categoria tomar todas as vacinas, olhar o sinal ao atravessar e mais algumas poucas outras coisas. Fora isso, é ema-ema-ema, cada um com seus problemas. Certo ou errado, o vizinho peladão está aí para nos dar mais essa lição de vida.
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Salve, meu povo! A última edição fez sucesso como apelido engraçado. Ana Rita agradeceu as “boas gargalhadas”. Já Uesley Durães informou que “apelidar tudo é atividade cultural na Bahia” e deixou um abraço para vereadora e para doutora Deolane. “É o nosso jeito moleque de ser”, resumiu Eliete Pereira.
Deixaram likes Ana Bimbati, Carol Nogueira, Dinorá Zanina, minha mãe, Mirela Pompermayer, Robson Santos e Rosângela.
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Aqui em casa somos os vizinhos da roupa de baixo. Às vezes me preocupo, na maioria das vezes penso que em situações assim, a gente olha, mas devia o olhar! Só não circulo peladona porque a distância pro prédio da frente é muito próxima. Morro de medo de sair na internet. Hahaha
Eu sou a vizinha peladona por pura displicência. Somos um grupo de pessoas distraídas demais para fechar as janelas e cortinas toda hora, simplesmente não me lembro. Eduardo vive dizendo que vou aparecer no jornal, mas nem esse terror me aflige.