A Camisa da Seleção
A Camisa da Seleção vai ao psicanalista
_ Seu nome é...
_ Amarelinha.
_Certo. E o que lhe traz aqui?
_ Aconteceram umas coisas estranhas nos últimos tempos.
_ Entendi.
_ Tudo começou, por coincidência, por causa de Copa.
_ Sim.
_ As pessoas começaram a dizer que não ia ter Copa.
_ Ok.
_ Elas estavam revoltadas com o governo, os custos da Copa, essas coisas.
_ Certo.
_ Aí, todo mundo ficou louco. Decidiu ir para as ruas, subir no prédio do Congresso. E o pior foi que, no fim, teve Copa. Ou, talvez, o pior tenha sido o fim que aquela Copa teve.
Silêncio.
_ Aí, as pessoas passaram a se lembrar mais de mim. Confesso que gostei daquela coisa de sair da gaveta com mais frequência. Afinal, ser usada só de quatro em quatro anos não faz bem para cabeça de ninguém. Autoestima nunca foi meu forte. Pouco a pouco, fui me tornando um ícone. Um objeto não mais restrito ao ambiente do futebol.
_ Incomodava ser um objeto restrito ao futebol?
_ Não, de forma alguma. Mas aquela coisa toda foi me seduzindo. Gente que nunca tinha me dado a bola me comprando a peso de ouro, me usando todo fim de semana, até a presidente cair. E, depois, me elevando a bastião da luta contra a corrupção. Quem é a favor da corrupção? Quem não gostaria de ser musa de um negócio desses?
Silêncio.
_ Aí, vieram os melhores anos. Quem me visse pela rua não enxergava mais só 11 marmanjos em campo, mas um recado, uma mensagem. Eu finalmente estava sendo levada à sério. Virei uniforme oficial do presidente. Tudo que aconteceu depois foi horrível, mas aqueles dias foram ótimos. Não vou mentir. Não faz sentido mentir para psicólogo, né?
_ Fique à vontade.
_ Mas aí veio a pandemia.
Silêncio.
_ Um troço macabro, terrível, muito pior do que o 7 a 1. Incomparavelmente pior.
Silêncio.
_ E eu fiquei naquelas, né? Porque o pessoal que me levou ao topo foi, no fim, bem responsável por tudo de ruim que aconteceu. Minha sensação é de que eles não estavam preparados. Nisso, a coisa se parece um pouco com 2014. Num caso, alegria nas pernas. No outro, cloroquina. Nos dois, perdemos de lavada. E cheguei à conclusão que estou numa crise de identidade.
Silêncio.
_ Tem gente que me vê na rua e logo se arrepia. Gente que me associa aos piores momentos da própria vida. Ou que simplesmente me odeia e que jurou para si nunca mais me vestir.
_ Isso lhe aflige?
_ Um pouco. Há o pessoal que, apesar de tudo, ainda me vê como bastião da luta contra a corrupção. Que tem até uma nostalgia, depois de tudo que aconteceu, apesar de tudo. Mas eu acho que queria voltar a ser apenas uma camisa.
_ Uma camisa?
_ É, algo que as pessoas vestissem para torcer sem ter que pensar em nada. Um objeto inanimado. Ou melhor, um objeto que anima. Vai que assim as pessoas voltam a só gostar de mim?
_ Você quer ser querida?
_ É, eu acho que é isso.
_ E o que você acha que precisa fazer para isso?
_ Ah, trazer o hexa. Eles não pensam em outra coisa. Se eu trouxer, esquecem.
_ Está bem, acho que por hoje é isso, Amarelinha. Até quinta!
_ Até lá!
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Salve, meu povo! A última edição não é ônibus, mas fez várias leitoras darem uma viagem. Ana Rita Cunha questiona o que o sociólogo alemão Georg Simmel teria a dizer diante da atual situação nas roletas do Rio. Eliete Pereira defendeu “uma cartilha ou curso intensivo” para ensinar os cariocas a pagar a passagem.
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Até quinta, às 8h30, aqui na Eixo!
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Reage, Amarelinha. Essa crise vai passar. Breve você voltará a ser nosso símbolo de festa, confiança e união. Usurpadores não a terão por muito tempo.
Relendo o texto depois do 1x1 com o Marrocos. Adorei a entrevista com a Amarelinha, porém tenho cada dia menos simpatia com ela. E ainda me assusto um pouco com pessoas vestidas de verde amarelo.