Vida adulta
Como é a vida de um adulto no século XXI?
Por Saulo Pereira Guimarães
O sujeito já acorda contra sua vontade. É sempre assim. Seja porque está frio, seja porque não há qualquer nenhum motivo razoável para isso. Ele se arrasta até o banheiro, toma banho — banho quente, se estiver frio — e escova os dentes. Escolhe a melhor roupa para ir ao trabalho, considerando temperatura, deslocamentos e dress code da firma. Uma vez, lhe disseram que se vestisse conforme quem o chefiava caso quisesse ascender e ele acreditou. Se a versão de ontem do sujeito tiver lembrado de comprar pão, leite e queijo, este é o momento em que o sujeito toma um bom café da manhã. Se não tiver lembrado, existe o risco do sujeito não ter o que comer agora, o que só agrava sua já combalida condição.
Mas o sujeito é brasileiro e não desiste nunca.
O sujeito pega o ônibus. Ou o trem. Ou o metrô. Que diferença faz? Os três vão cheios mesmo. Dependendo do seu nível de masoquismo, acredite: o sujeito é capaz de ouvir um podcast de notícias neste momento. Se estiver um pouco mais fragilizado, Picolé de Limão. Após alguns minutos, horas ou dias, ele chega a seu destino. Ou pior, à baldeação. Baldeação é tão ruim que, alguns anos atrás, um homem que descia no metrô Consolação e tinha de seguir à pé até o metrô Paulista ia xingando todos que via pela frente. Diariamente. Mas o sujeito, não. Desembarca em meio à multidão e caminha na manhã cinza, pensando no sentido da existência, na melhor ordem para lavar as roupas ou na posição do time no Brasileiro. A mente do sujeito agora é tão consistente quanto um mingau cremogema com canela, em que cada pequeno ponto marrom representa cada um de seus intrusivos pensamentos.
O sujeito chega ao trabalho.
O trabalho nada mais é do que a melhor forma que o sujeito encontrou de ocupar o seu tempo. Ele poderia estar escrevendo um romance, aprendendo a cozinhar ou lutando contra a violação de direitos humanos na Faixa de Gaza. Mas pensou bem e chegou a inacreditável conclusão de que vender 8 horas de esforço para alcançar um objetivo alheio muitas vezes sem sentido era o melhor a se fazer. Talvez, aqui, eu esteja sendo injusto. Porque o sujeito tem contas e sonhos que dependem do dinheiro que ele, que não é bandido nem herdeiro, só pode conseguir por meio do trabalho. Mas nunca deveríamos excluir a possibilidade de que a minha primeira hipótese seja a mais correta e que o sujeito não esteja mesmo fazendo as melhores escolhas em relação a sua vida.
Aí, depois de 8 horas de trabalho, o sujeito tem, vejam só, sua liberdade concedida. Qualquer um ficaria serelepe, mas nosso amigo está exausto demais para isso. É tempo de viajar até em casa outra vez e, nas poucas horas livres que restarem, se deparar com o eventual fracasso que pode ser a sua vida. Para preencher esse buraco, só mesmo com muito Instagram, Netflix e afins, na melhor das hipóteses. Mas aí, depois de jantar e tomar banho, quando deita na cama e encosta a cabeça no travesseiro, o sujeito é capaz de agradecer a Deus pela vida que tem.
Sujeito engraçado o sujeito.
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