Serra pelada carioca
Ascensão & queda de um Eldorado suburbano
Por Saulo Pereira Guimarães
Antônio Azevedo da Silva foi de entregador de jornal a notícia em janeiro de 1992. Sete meses antes, sua filha Ana Cristina encontrou, numa pracinha em frente ao Conjunto Habitacional Mendes de Moraes — o popular Pedregulho — em Benfica, uma pedra. Porém, não se tratava de uma pedra qualquer, como indicou a Antônio um ex-minerador seu conhecido — mas uma pedra semipreciosa. Mas precisamente, um topázio, segundo análise de um joalheiro consultado por Antonio em Niterói.
De posse da informação, Antônio mudou sua rotina. Por meses a fio, o homem de 43 anos passou a sair todos os dias do cômodo onde morava com mulher e três filhos na rua Lopes Trovão e seguir até a praça em busca de novos achados. Aos vizinhos, ele disse que procurava pedrinhas para aquários. E juntou 53 quilos de rochas como aquela que a filha havia encontrado, avaliados pelo joalheiro em R$ 400 mil em valores atualizados, até desistir de esperar que o niteroiense pagasse pelos minerais e, cansado de adiar o sonho da casa própria, denunciasse o caso às autoridades e visse sua mina ser invadida por aventureiros.
A notícia correu rápido por Benfica. No dia seguinte à circulação do rumor, 50 pessoas amanheceram na grimpa de 200 metros quadrados com pás, enxadas e até colheres de mesa. Pela tarde, já eram 400 e o paisagismo tombado de Burle Marx que integrava a paisagem logo foi reduzido a um cenário lunar, prontamente apelidado de Serra Pelada. Entre os garimpeiros, corria a versão de que Dom Pedro I, antigo morador do bairro vizinho de São Cristóvão, tinha o dadivoso hábito de esconder tesouros — o que justificava a corrida suburbana do ouro. Ou melhor, por insuspeitos topázios.
Veio gente de Bangu, Belford Roxo, Caxias, Itaboraí, Nova Iguaçu, São Gonçalo, Senador Camará e até de São Paulo. Por alguns dias, Benfica se tornou a Nova Califórnia. Quem quisesse comprar uma peneira para dar início aos trabalhos precisava morrer a preciosa quantia de R$ 60 em valores de hoje. Mas, para quem tinha muito pouco ou quase nada, só a possibilidade de conseguir alguma coisa já representava um ativo e tanto. Que o diga Rosana Francisco, de 19 anos, moradora do Tuiuti, que desceu a ladeira em busca da fortuna e só parava de tentar bamburrar para amamentar a filha Tainá, de 7 meses. “Agora vou poder comprar uma casa na Barra”, alardeou ao Globo com uma pedra branca na mão o desempregado Humberto Gonçalves.

O Eldorado de Benfica sobreviveu por nove dias. Esse foi o tempo necessário para que um laudo da Divisão de Mineração do Ministério da Infraestrutura apontasse que o topázio suburbano — cujo quilate era estimado em R$ 570 em valores de 2026 — nada mais era que citrino quartzo, uma pedra com brilho similar, mas bem mais barata, com quilate avaliado em R$ 15 atuais. Segundo a investigação, os minerais foram parar ali na época em que o Pedregulho fora construído, muito provavelmente como restos da obra. E para piorar, até hoje, não se tem notícia de ocorrência de topázio no território fluminense.
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Salve, meu povo! E a última edição? “Achei que ia passar raiva e acabei o texto morrendo de rir”, disse Ana Rita. “Sensacional”, disse Ana Bimbati. “Muito bom”, disse Ludmila Primo. “Adorei o texto”, disse Bárbara Libório. “Me diverti e me lembrei que tenho que fazer a lista de compras”, disse Eliete Pereira. Camila Maia pediu ao Claude que escrevesse algo com base no prompt. Leia!
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Que triste! Quantos sonhos destruídos! Li, imaginando a decepção nos rostos dos "garimpeiros de Benfica."
Imaginei mil coisas lendo o título, mas não cheguei perto da praça cheia de restos de obra que eram brilhantes e bonitos. Tadinho do pessoal