Mermão
Chamar alguém de meu irmão denota intimidade?
Por Saulo Pereira Guimarães
Não é toda hora que uma palavra está no coração de um escândalo político. No caso da vez, o termo em questão, a bem da Justiça, sequer existe. Ou, pelo menos, não está dicionarizado. Afinal, a forma “mermão”, tipicamente usada no trecho do litoral brasileiro espremido entre Ilhabela e Marataízes, não consta no Aurélio. Mas é ela quem tem despertado paixões. De um lado, o senador diz que é seu linguajar. Do outro, muita gente vê intimidade dele com o banqueiro.
Por conta dela, a palavra. “Mermão”.
Adianto logo que não vou cair aqui na esparrela de debater o lado político dessa querela. Vou me ater ao problema léxico. O senador diz que “mermão” está para o Rio como “piá” para o Paraná e “mano” para São Paulo. É, pode ser. Mas o fato é que cada palavra dessas tem o momento certo de ser usada. “Irmãozinho”, por exemplo, era algo que meu pai só falava quando estava profundamente irritado com um flanelinha desconhecido. Já o “brother” dos surfistas rompeu a bolha e é usado nacionalmente de forma indiscriminada. Há, inclusive, quem flexione gênero. O brother, a brother, numa loucura linguística brasileiríssima.
Há aqueles vocativos que, de tão usados, passam a ser identificados com seu dono. É o caso de “companheiro” e “peixe”, por exemplo. Um é a cara do Lula. O outro, marca registrada do Romário. Voltando ao Rio, temos nossa coleçãozinha nesse sentido também. Afinal, em que outras paragens as pessoas se chamam com tanta frequência de “parceiro”? Tem termos que ficaram marcados no tempo, como o hospitalar “sangue bom”, que é pai do afetivo “fechamento”, mais recente.
As formas pelas quais um vocativo pode invocar deferência são um capítulo à parte. “Capitão”, “major”, “sargento” e todo um exército de patentes empregado anarquicamente. Fico pensando porque o senador não foi por esse caminho. A hagiografia por trás de um “abençoado”. A liturgia de um “consagrado”. Uma vez em Salvador, indo para o hospital durante uma crise de asma, vi o motorista chamar o cara do estacionamento de “minha benção”. É de um carinho à toda prova.
Nunca mais esqueci.
Da mesma forma que transmitem respeito, os vocativos podem ser debochados. Minha mãe passou anos chateada com um colega do meu tio que a chamou de “dona Maria” quando ela passou por eles num bar. Ana Rita conta que meu sogro chamava a todos de “jovem”, independente de serem mais novos (ou mais velhos) que ele. Tenho uma prima que só nos chamava de “nem”. E uma vizinha que usava muito o famigerado “coisinha”, mas de um jeito que a gente não ficava chateado.
A conclusão que dá para chegar é que a forma como você chama alguém é definitiva para o desfecho da conversa. Ninguém chama alguém de “amigo” se não for, mesmo que implicitamente, pedir um favor. O mesmo vale para “gente boa” e, mais ainda, para interesseiríssimo “gente fina”. Pode esperar que, se elogiou assim, é porque a conta vem. “Irmão”, então, é, para mim, quase bíblico. Já no caso do “mermão”, o mais prudente é aguardar o avanço das investigações.
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Salve, meu povo! E a última edição? De repente quase 30 questionou por que não estou animado com o show da Marina Sena. Ana Rita lembrou que gostava muito da São Paulo do começo da década passada. “A Virada tem que ser variada como a cidade”, disse Kami. “A diversificação dos convidados é necessária”, concordou Eliete Pereira.
Alexandre Almeida, Ludmila Primo, minha mãe e Nina Rocha deixaram likes.
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